Cisne Negro (2010)

Parou a palhaçada! Tô achando esse blog felizinho demais e resolvi ir atrás de um filme que desse um contraste bem forte. E é nesse clima pós-quarta-feira de cinzas que vou falar um pouco sobre um filme perturbador, mas igualmente intrigante: Cisne Negro!

O filme já começa com uma linda sequência de dança, executada por nossa protagonista, Nina, em um sonho. Pode parecer meio clichê começar o filme com um sonho da protagonista, mas nesse caso a coisa é um pouco diferente. Em Cisne Negro, a história do filme em si ocorre paralelamente, por assim dizer, à história do próprio Lago dos Cisnes (o famoso balé no qual Cisne Negro se inspira livremente). Essa sequência, que é o prólogo de Lago dos Cisnes, equivale ao começo do filme, em que conhecemos o cotidiano e o jeito de ser de Nina: aparentemente, uma bailarina dedicada, doce e introspectiva.

Assim, cada personagem do balé tem seu equivalente no filme – seja pela personalidade ou apenas pelo que representa para Nina, nossa protagonista. A própria Nina representa, na verdade, o Cisne Branco – sua antagonista, Lily, é quem tem as características do Cisne Negro. Aí encontra-se o primeiro conflito do enredo: para poder interpretar o papel principal no balé, de Rainha dos Cisnes, Nina precisa convencer tanto como Cisne Branco quanto como Cisne Negro, e é aí que a coisa começa a complicar.

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Engraçado que, antes de ver Cisne Negro, eu nunca tinha parado pra pensar em como nossa personalidade reflete diretamente no nosso trabalho (especialmente pra quem lida com arte, de maneira geral). Para se adequar ao papel de seus sonhos, Nina precisa transmitir uma impressão totalmente diferente da de costume. Para tanto, começa a ajustar seu comportamento (em relação à sua mãe, seu corpo e seus desejos) e a compará-lo com o de Lily, uma mulher sedutora, descontraída e independente. Lily é tudo o que Nina precisa e deseja ser – o que a torna também uma ameaça na corrida pelo papel.

No começo da história, é fácil sentir empatia pela Nina. Me identifiquei com a vontade de atingir a perfeição, o apego emocional à sua situação no trabalho, a frustração por não ser boa o suficiente… Até aí, não dá pra julgá-la, vai! O problema é que, com o passar do tempo, sua dedicação torna-se obsessão, sua doçura desaparece e sua introspecção vira egocentrismo. Percebemos, então, que o conflito do filme não é entre Nina e Lily, e sim entre as duas Ninas (a Nina retraída e resignada – o Cisne Branco – e a Nina inconsequente e perigosa – Cisne Negro).

Você poderia dizer que a Nina antes era “do bem” e foi se deixando levar por sua fixação  em se tornar a Rainha dos Cisnes. Pra mim, desde o começo da história, o jeito de ser  de Nina não é exatamente saudável… O comportamento doentio que ela acaba adquirindo nada mais é do que uma explosão de todos os sentimentos e desejos reprimidos, frutos da disciplina exacerbada que ela impunha a si mesma. Disciplina essa provavelmente herdada da mãe, com quem mantém uma relação quase sufocante.

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Aliás, a mãe da Nina é uma personagem crucial, tanto quanto a Lily. Essas duas personagens são forças opostas que exercem influência sobre Nina: a mãe representa o que ela era e Lily, o que ela quer ser. Em um primeiro momento, ela escolhe Lily, mas logo percebe-se que Nina já está perturbada demais e, se antes Lily lhe parecia uma aliada, um exemplo a ser seguido, ela torna-se uma perigosa rival – pelo menos, pela perspectiva obsessiva de Nina. Mas como a história nos é mostrada pelo ponto de vista dela, fica difícil não suspeitar (nem que seja só por um minutinho) da Lily.

A essa altura, a insanidade de Nina alcança seu auge e o ritmo do filme acelera – nessa parte se concentram as cenas de maior suspense (não que chegue a dar medo… mas a cena da cozinha dá um sustinho, vai!). Não vou dar spoiler, apesar de que, se você leu tudo isso, você deve já deve saber como acaba. Digo apenas que gostei bastante da maneira como o filme acaba, tecnicamente falando. Cisne Negro tem umas escolhas técnicas bem legais – como a câmera subjetiva girando quando a Nina dá piruetas em sua audição para o papel, ou a cena dos espelhos quando ela prova seu figurino.

O elenco do filme é sensacional: Natalie Portman brilhou como Nina, um papel mega desafiador que ela tirou de letra! Reparei no jeito que ela chora pressionando os lábios, combina com o jeito reprimido da personagem (ou ela sempre faz isso? Fãs dela, let me know!). Mila Kunis também tá ótima, perfeita pro papel, mas também destaco a performance da mãe – dá medo, raiva e dó dela ao mesmo tempo!

Por essas e outras, Cisne Negro é um show de filme, igualmente belo e macabro. Impossível não se impressionar com ele. Mas acho que a mensagem final é: cada um de nós tem um lado sombrio, cruel, perverso. Tenha a bondade de adestrar o seu – antes que ele domine, de preferência!

Data do post original: 14 de fevereiro de 2013

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