Educação.doc

Não sei se muita gente sabe, mas meu primeiro estágio foi num programa de TV educativo de temática socioambiental – chamava-se Ação e Meio Ambiente. Tudo bem, você pode ser malvado e dizer algo do tipo “Nossa, nunca ouvi falar!”. Realmente, era um programa que passava somente em emissoras menores, que dão mais abertura e realmente precisam de conteúdos como esse. Mas entre os altos e baixos que só um primeiro estágio pode proporcionar, o que eu mais gostava era do fato do programa ter uma  razão de ser, uma causa pela qual lutar. E esse é o mesmo motivo pelo qual meus olhinhos brilharam ao assistir o Educação.doc.

Basicamente, é um documentário com estrutura de websérie: a cada episódio, um aspecto mais específico da educação é analisado. O projeto foi escrito e dirigido por Luiz Bolognesi – gente finíssima, fui num workshop de roteiro dele e foi demais; tem um jeito de falar meio Woody Allen jovem – e tem como codiretora ninguém menos que Laís Bodanzky – que é também esposa dele. Aliás, eles também têm um site chamado Tela Brasil (em que divulgam festivais e fazem concursos culturais) e promovem oficinas de cinema itinerantes por todo o país. Casal legal, né?

Pois é, arte com causa social não é uma coisa estranha pra eles. Em Educação.doc, o que mais me agrada é a abordagem geral (que, como minha irmã me ensinou, chama-se reforço positivo): em vez de usarem um tom acusatório, de denúncia, exigindo melhorias e mostrando os absurdos do ensino brasileiro, optaram por selecionar algumas das melhores escolas do país e analisar por que elas dão tão certo. A instituição “escola” é destrinchada de todas as perspectivas – alunos, professores, administração, governo -, o que ressalta ainda mais sua importância e necessidade de melhoria.

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Ao longo de cinco episódios, vemos histórias e depoimentos inspiradores: famosos que compartilham suas experiências na escola, crianças que amam ir pra escola, professores que amam ensinar, diretores que estimulam todos a darem o seu melhor, pais orgulhosos e dispostos a manter uma sólida parceria com a escola dos filhos. Métodos de avaliação, incentivo à cultura local, presença real na vida dos alunos: esses e tantos outros elementos se complementam e tornam a escola um ambiente que forma cidadãos, e não apenas estudantes com “formação teórica adequada”.

Um dos temas que mais me chamou a atenção foi a postura da direção em relação ao grêmio estudantil. As escolas em que estudei nunca tiveram grêmio estudantil; no máximo, representantes, que estavam mais a serviço da direção do que da própria classe. Daí minha surpresa ao ver a voz dos alunos sendo levada tão a sério – voz essa muito bem estruturada pelos alunos, defendendo de forma objetiva e clara os seus interesses. É uma vivência extremamente política, mas pode se tornar uma decepção quando esse tipo de organização existe só pra manter as aparências.

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Estabelecendo o diálogo com os alunos, a direção acaba se relacionando muito mais com eles, que passam a se preocupar muito mais com o que se passa dentro da escola. Eles são alguém lá dentro, alguém que importa (e se importa). Da mesma forma, o incentivo a novas formas de ensinar por parte dos professores os deixa ainda mais motivados, orgulhosos de sua função. Muita gente (e muita escola) acha que criatividade é necessariamente uma coisa caótica, que prejudica a “ordem” – mas de que adianta uma ordem que só oprime, sem propor um crescimento real de seus alunos?

Assistir o Educação.doc despertou em mim várias reflexões que tive a respeito das escolas pelas quais passei, e sobre a escola que um dia sonho para os meus filhos (frase clichê, mas sincera). E olha, MUITA coisa precisa mudar. Mas como toda mudança social real, não é de um dia pro outro, nem só depende de um grupo específico: é toda uma mentalidade que tem que mudar. Ir pra escola não devia ser visto como obrigação. Mas apesar dos pesares, a conclusão que fica é precisa e otimista: a educação no Brasil definitivamente não é um caso perdido.

Data do post original: 29 de janeiro de 2015

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