Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

Mantendo a onda nacional do post anterior, não tinha como eu não falar de um dos filmes mais lindinhos já produzidos por aqui! Tá na boca do povo, geral morreu de amores com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Pra quem viu o curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010), a expectativa já era grande. Falando nele, acho MUITO importante explicar que nunca fiz resenha dele aqui por sua duração (uns 20 minutos), e no começo do blog muita gente me falou que tinha preguiça de ver vídeo longo, etc. Ainda assim, nas minhas longas buscas por curtas brasileiros, sempre me deparava com ele e ficava a curiosidade – não assistia pra não ficar com vontade de postar.

Pra quem não conhece o curta, a história retrata a vida do Léo, um garoto cego e instrospectivo, suas relações e inquietações de adolescente. Depois de assistir o filme e pensar nos acontecimentos pontuais do enredo, não há nada muito elaborado – e nem precisaria ser assim, uma vez que um personagem singular como o Léo reage a eles de maneira totalmente diferente. Longe de mim ser preconceituosa e ficar apontando o dedo pra deficiência visual dele, mas ela é com certeza sua característica mais marcante – e o que faz dele um protagonista tão carismático, além do seu jeitinho fofo e sarcástico de falar.

 

Assim, temas comumente tratados em obras destinadas ao público jovem são reinventados através do protagonista. Entre eles, temos a liberdade que seus pais (não) lhe dão – e quem pode julgá-los por isso? -, a vontade de fazer intercâmbio, a descoberta da sexualidade e a importância das aparências. O fato do Léo ser cego acaba intensificando alguns conflitos, mas também externa outros de forma extremamente sensível. Destaque para a cena do chuveiro (a primeira), a do cinema, a do moletom e a final, na saída da aula – minha preferida! (Sim, você-que-não-viu, estou falando assim pra você ficar curioso e assistir).

No curta, temos um maior enfoque na questão da homossexualidade. Percebi que muita gente divulgou o filme mais por isso, classificando como filme gay e analisando as cenas dos dois garotos. Acho uma abordagem um pouco equivocada, mesmo que não seja spoiler pra ninguém.  Claro que acresce sentido ao personagem e dá um gás a mais na história, mas não gosto de rotular desse jeito, parece que segrega mais.

O longa expande a vida do Léo, cria mais obstáculos e subtramas, gosto mais assim. Afinal, ele é cego e se descobre gay, e não é gay e se descobre cego – o que seria no mínimo estranho, agora que parei pra ler. E o fato do casal principal ser gay ou hetero pouco importa: o interessante é ver como ter alguém ao seu lado fez do Léo uma pessoa melhor e mais bem resolvida. Tudo bem, a moral da história não é “Arranje um namorado e seja feliz”, e sim como o é importante saber com clareza quem você é e o que quer da vida. É autoconhecimento.

Um detalhe que muito me agradou: uma cena em que uns caras mexem com o Léo, ele vai embora e uma menina fala “Vocês são foda, hein”. ENFIM, adolescentes falando como adolescentes! Usamos a linguagem Malhação (barra pesada, paquera, etc) por tempo demais, galera. Não precisa ser um festival de palavrões, mas chega de gíria que ninguém usa! Aliás, a turminha do fundão é mesmo bem irritante, missão cumprida, haha. A parte da festa achei meio surreal porque não creio que haja gente tão malvada nesse mundão de Deus, mas provavelmente eu que sou a iludida.

No mais, a fotografia meio cinzenta me agradou, elenco mandou bem na atuação e a lindíssima música tema, Janta (Marcelo Camelo s2 Mallu Magalhães) ficou na cabeça por dias – inclusive, achei a cena do curta com a música mais legal que a do longa. Em termos de história, dá pra ver uma evolução do curta pro longa, mas ambos são apreciáveis separadamente.Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é refinado, realista e sensível ao mesmo tempo. Mais profundo que os filmes geralmente destinados ao público jovem e mais delicado que a maioria dos filmes nacionais independentes. Mostra que o cinema brasileiro não serve só pra chocar e impactar audiências, mas também envolver e emocionar.

Data do post original:15 de maio de 2014

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