Que Horas Ela Volta? (2015)

Era um dia comum: lá estava eu, dando uma olhadinha no meu feed do Facebook (quem sempre) e de repente leio a notícia: “Regina Casé ganha prêmio de Melhor Atriz no Festival de Sundance”. QUÊ? Precisei ler umas três vezes pra assimilar. Como assim? Fui pesquisar mais sobre o filme. Geralmente não ligo tanto pra premiações na hora de escolher os filmes que quero ver, mas esse me deixou intrigada. Depois de ver o teaser, então, fiquei maluca!

Pessoalmente, a realidade do filme é extremamente familiar pra mim, e imagino que seja pra grande parte da minha geração – a geração “Fabinho”. Nossas mães trabalhavam o dia todo e suas empregadas cuidavam da casa e dos filhos (espero não me acharem arrogante por usar o termo “empregada”). Como minha irmã explicou num texto bem bonitinho, pra gente não tinha essa de se achar superior às mulheres que trabalharam em casa.

A Zefinha adorava decorar bordões de novela (”Copiou, Farinha?”). A Geralda ouvia Gil Gomes contando história assustadoras enquanto passava roupa – e eu morria de medo. Já a Creuza me deu um zilhão de apelidos  carinhosos e esperava pacientemente as quase duas horas que eu demorava pra almoçar. Elas fizeram parte da maioria das minhas lembranças de infância e adolescência. Fiquei muito chateada cada vez que uma delas foi embora. Quase abandonada, sabe?

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Quando eu assisti Que Horas Ela Volta?, a ficha caiu. Essa história não é sobre mim, nem deveria ser. Eu tenho praticamente tudo o que eu preciso na vida. Eu não tive que sacrificar nada em troca disso. Reconhecer uma coisa dessas é meio desconfortável: é, eu sou privilegiada. É só esse assunto vir à tona que muita gente fica na defensiva – não, mas eu me esforcei! Eu trabalhei! Eu sou uma boa pessoa!

Acontece que ser privilegiado não é ofensa, é circunstância.Ter oportunidades que outras pessoas apenas sonham em ter (oportunidades que independem de esforço próprio, especialmente) é um privilégio. Tentar mascarar esse fato com argumentos do tipo “somos todos iguais” é hipocrisia. Se fôssemos, porque uma pessoa teria que largar a família em outro estado pra conseguir o sustento de todos e outras são servidas por essa mesma pessoa?

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Manter as aparências parece ser o protocolo social mais sagrado, o famoso “não tenho nada contra, mas…”. Pra mim, esse é o tema principal do filme: preconceito velado. Todos agindo conforme sabem que devem agir, de acordo com limites invisíveis – que todo mundo sabe quais são. E quando chega alguém que quebra essa dinâmica, alguém com uma percepção completamente livre dessas regras subentendidas, toda essa estrutura vai abaixo.

Falando desse jeito, o filme parece se resumir a uma crítica social pesada e caótica, mas não é o caso: o que vemos é uma história leve, divertida e emocionante. Que Horas Ela Volta? chega, te faz cócegas, dá um tapa na sua cara e, por fim, te abraça, fazendo cafuné nos seus cabelos. Você pode simplesmente aproveitar o filme como uma distração e voltar pra sua casa pensando da mesma forma. Mas, cá entre nós, seria um baita de um desperdício.

Data do post original: 22 de setembro de 2015

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