A questão racial é de múltipla escolha?

Os olhares intimidados da plateia do Grammy durante a performance do rapper Kendrick Lamar.

As críticas que Beyoncé sofreu após a performance da música Formation no show do Super Bowl (inspirando até uma esquete do SNL).

O possível boicote ao Oscar, após a divulgarem as indicações (com a imensa maioria composta de brancos).

Mais complicado que entender as peculiaridades da questão racial é falar sobre ela sendo branca e, portanto, analisar toda a situação a uma distância segura, no plano das possibilidades. Em outras palavras: eu lá tenho moral pra falar disso? Independente do caso, é um assunto que me interessa, uma causa que defendo.

Sei que não posso falar em nome de Kendrick, Beyoncé ou Will Smith. Posso tentar, mas nunca vou chegar num nível de abstração que se aproxime do que eles passam. Acho que, em vez de dar carteirada de rainha da empatia, vou tentar explicar a complexidade desses casos pra quem nunca pensou muito no assunto. A primeira questão é: por que representatividade é importante?

88th Oscars¨, Nominees Luncheon

“Não que eu seja racista, mas não sei pra que ficar criando caso por uma posição de destaque, seja qual for. Soa muito egocêntrico, exibicionista. Eles fizeram a seleção das pessoas sem ver a cor, isso sim seria racista!”

Eu entendo. É difícil entender a importância de ver pessoas como você em posições de destaque quando você nunca teve esse problema. Seus professores, presidentes, brinquedos de filmes e protagonistas de novela sempre foram como você – mas não passa de uma coincidência, certo? Errado.

Em um mundo justo e ideal, as coisas não seriam diferentes conforme a cor da sua pele. Mas nosso mundo não é esse. Se o tratamento, a visibilidade e as oportunidades são diferentes na prática, a representatividade é uma forma de combater essa desigualdade.

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Representatividade não só no sentindo de naturalizar a presença de minorias em todas as esferas da sociedade (especialmente na comunicação), mas no posicionamento consciente de quem faz parte delas. A Beyoncé sempre foi negra, mas passou pelo que a maioria das artistas negras passam quando ficam famosas: tentam “esbranquiçar” sua aparência. O fato dela se afirmar negra em Formation, especialmente em meio a violência policial e ao movimento Black Lives Matter, é um ato político.

Pode parecer muita repercussão sobre uma simples música, mas esse é o poder que a indústria do entretenimento exerce sobre a sociedade. Quando a Beyoncé se afirmou feminista, diversas artistas e fãs seguiram seu exemplo, por se identificarem com o que ela transmitiu em seu trabalho.

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Com Kendrick, a situação é semelhante: na performance que realizou no Grammy, trouxe à tona suas influências musicais africanas e críticas ao racismo. No vídeo, é possível ver alguns rostos assustados da plateia. Parecem pensar “Nossa, que revolta! Pra que ficar escancarando as nossas diferenças desse jeito? Nós somos todos iguais! “. 

Por que o(a) negro(a) que sente orgulho de sua origem incomoda tanto? Expor as diferenças de raça não significa defender o racismo, mas, sim, reconhecer sua existência para poder combatê-lo. Pra quem é branco(a) como eu, pode até ser mais confortável fingir que o racismo não existe mais. Mas lembre-se: quem é negro(a) não tem essa opção.

 

 

 

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