Procurando Dory

Por fazer parte da “geração Andy”, sempre faço questão de assistir os filmes da Pixar. Mas tenho opiniões levemente impopulares – acho Monstros S.A. chatinho e sou apaixonada por Vida de Inseto, por exemplo. Entre elas, enjoei Procurando Nemo por um bom tempo. Ele veio bem na época dos DVDs, então acabei tendo uma overdose e cansando – a ponto de me irritar com pessoas falando baleiês quanto o filme era citado em rodas de conversa.

Quando comecei a estudar roteiro, me toquei o quanto Procurando Nemo é minuciosamente bem construído. Aliás, isso é algo que admiro pacas na Pixar: eles dão valor pro roteiro. Ficam anos lapidando a história até ficar “padrão Pixar”, e o resultado costuma valer a espera. Foi o caso de Procurando Dory – que eu achei bem ousado em alguns aspectos que explicarei adiante.

Primeiro, é importante dizer que o desafio de tornar um coadjuvante tão carismático como Dory em protagonista já é um baita desafio – especialmente por ela ser um alívio cômico. Como trazer profundidade à personagem sem que ela perca a graça ou mude demais? É um desafio semelhante ao que o Vince Gilligan, criador de Breaking Bad (melhor série), teve ao criar Better Call Saul. Pode ser bom, mas nunca vai ser a mesma coisa.

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No caso de Procurando Dory, realmente, o filme não alcança a excelência de Procurando Nemo. Mas ele explora outros caminhos, com a mesma abordagem sensível e divertida do seu antecessor. O filme trata da deficiência mental de uma forma leve, mas também muito poderosa. Inclusive, esse foi um ponto curioso: mesmo me divertindo, achei o filme triste e me emocionei pacas. Até cheguei a comentar com a família que os filmes novos da Pixar (esse e Divertidamente) estão profundos demais, acertando right in the feels.

Depois de parar pra pensar, percebi que fui eu que cresci. Se eu for analisar de perto um Toy Story da vida ou até Os Incríveis (amo), também vou achar vários temas profundos, da vida adulta mesmo. Essa dupla camada de interpretação só comprova a genialidade da Pixar! Mas sério, o esforço desgastante da Dory pra lembrar do seu passado e a postura otimista e carinhosa dos seus pais me fizeram chorar que nem um bebezão.

Pra fazer o contraponto, temos o Marly – como sempre, fazendo a parte racional, pragmática. Ele não tem paciência com a Dory, porque ele julga já ter coisas o suficiente para se preocupar. A maioria de nós age como ele, quando convivemos com alguém como a Dory. Mesmo que não seja por mal, comportamentos desse tipo machucam, isolam, põe a pessoa pra baixo. E, por ironia do destino, é só quando o Marly começa a se inspirar (“O que a Dory faria?”) que ele consegue superar seus próprios obstáculos.

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A mesma coisa acontece com Hank, o polvo. A gente nem chega a descobrir o que o traumatizou tanto a ponto dele não querer voltar pro mar (fiquei bem curiosa, inclusive), mas ele também aprende a superar esse medo com a Dory. Mesmo que ela não se lembre, ela também não teve uma vida fácil, mas não se deixou abalar por isso – ela continuou a nadar. Ele, que antes a menosprezava, só conseguiu seguir em frente com o seu apoio. 

Isso é bem interessante no filme: geralmente, em narrativas mais tradicionais, o protagonista passa por vários eventos que o transformam de alguma forma. Mas, no caso da Dory, ela não muda – pelo contrário, ela mantém sua essência e transforma as pessoas por onde passa. No fim das contas, foi uma escolha acertada, porque a gente gosta da Dory do jeitinho que ela é!

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