Aquela 3% é vagabunda?

Mesmo antes do lançamento, eu já estava ansiosa por 3%: a primeira série brasileira da Netflix e um belo incentivo para a produção de mais séries nacionais – pra quem é da área, um cenário mais que promissor! Eis que a série estreou há um tempinho e corri pra assistir! Separei 3 (número super aleatório) aspectos para comentar:

piloto3

1) Roteiro

Em relação ao piloto filmado há alguns anos, percebo uma mudança de tom: se, antes, era uma distopia mais “1984” (militarizada, autoritária e opressora), a série da Netflix tomou um rumo mais “Admirável Mundo Novo”(individualismo, alienação, manipulação das massas) – isso mesmo, senhores, estou citando livros.

Assim, o Processo deixa de ser um recrutamento “barra pesada” pra ser uma seleção voluntária – o que não o torna menos problemático e cheio de mind games. Ao meu ver, essa temática faz todo sentido pra realidade brasileira, com uma “cultura do vestibular” tão forte como a nossa: é fácil dizer que é uma escolha quando a outra opção é ser considerado inferior pela sociedade.

Algumas provas do processo podem até parecer bobinhas, mas minha experiência no TCC me fez entender essa escolha: é melhor uma prova simples e fácil de acompanhar do que uma prova complicada que ninguém entende – no fim, o que importa é o subtexto por trás delas. E duvido bastante que quem achou o roteiro previsível assistiu a série até o final, porque a trama tem uma belas reviravoltas (ainda que algumas delas sejam meio confusas).

Os diálogos realmente poderiam ser melhores, mas a construção dos personagens é ótima: os cinco candidatos principais têm trajetórias bem definidas, e cada um deles tem sua razão de existir no grupo. Todos tem seu momento de decisão e sofrem mudanças bem interessantes ao longo da temporada!

O único que não se salva, pra mim, é o Ezequiel: ele não é um vilão que intimida, nem um vilão que você ama odiar, nem mesmo um vilão que você respeita. Mesmo depois de entender o seu passado, não senti o mínimo de empatia por ele.  

3porcento

(quem não adora esse plano Cavaleiros dos Zodíaco?)

2) Elenco

Não sei dizer se minha antipatia pelo Ezequiel vem do personagem em si ou da atuação, mas esse é outro ponto bastante criticado. A pronúncia dos atores é meio robótica, como se tentassem facilitar a tradução dos diálogos FALANDO BEM CLARAMENTE. Ficou forçado e incomodou, principalmente nos primeiros episódios.

Conforme fui assistindo, isso parou de incomodar – talvez porque o elenco foi se sentindo mais confiante, talvez porque eu fui ficando mais envolvida na história. De qualquer forma, é inegável que a atriz que faz a Joana se destacou demais (ela me ganhou desde o teaser). A Michele também achei bem consistente, mesmo que um pouco apagada.

Mas o que eu gostei mesmo foi de ver a diversidade do elenco, bastante equilibrado entre homens e mulheres – e também entre brancos e negros. Pode parecer um detalhe bobo, mas representatividade importa, ainda mais para uma série com a visibilidade de 3%. O Brasil é assim, mores!

Quanto à representatividade feminina, tenho uma pequena ressalva: apesar de serem muitas, as mulheres da série mal se relacionam – por exemplo: eu nem lembro de a Michele e a Joana trocarem um “a”, sendo que passam metade da série juntas. Nada que uma segunda temporada não possa resolver!

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3) Recepção

Mal a série estreou e o que eu mais vi, tanto do público geral quanto dos críticos, foram reclamações. Além dos aspectos que já citei, os efeitos especiais e o figurino foram bastante criticados –  pessoalmente, só não entendi porque os candidatos usam uniformes de cores diferentes sem nenhum critério.

Acontece que, como eu já estava curiosa, assisti mesmo assim. O triste é que nem todo mundo faz isso: muita gente já dá aquela menosprezada por ser nacional, daí vê essas críticas e desiste de vez. E quem disse que a recepção dos gringos tá tão ruim assim?

No fim das contas, a produção é por demanda. Se ninguém assistir conteúdo nacional, ele vai se resumir à cota da Lei da TV Paga e a gente nunca vai ter um Breaking Bad da vida. Vamos valorizar o que está sendo feito agora! 3% tem pontos a melhorar, mas tem todo potencial pra chegar do lado de lá.

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